Norma Técnica de Planejamento Familiar do Ministério da Saúde para Uso e Administração da Contracepção de Emergência (editada em 1996)
11. ANTICONCEPÇÃO DE EMERGÊNCIA
Com
extensa sinonímia, a anticoncepção de emergência (Pílula Pós-Coital,
Intercepção, Contragestão, etc.) é uma metodologia anticonceptiva
alternativa de caráter escepcional, para utilização em situações de emergência.
Portanto, constitui uma situação especial de uso dos anticoncepcionais
hormonais horais já registrados comercializado no Brasil, ainda que seja
importante enfatizarmos a inconveniência da habitualidade do uso da
metodologia.
A ocorrência de uma gravidez depende de uma seqüência de eventos que
envolvem todos os complexos mecanismos da endocrinologia reprodutiva masculina e
feminina, dos quais salientamos a ascensão dos espermatozóides pelo sistema
canalicular feminino, a fertilização do ovócito, o ovo transporte e a nidação
endometrial. Na fisiologia normal a fertilização ocorre na ampola tubária até
aproximadamente 72 horas após o intercurso sexual. Ocorrendo condições favoráveis
à implantação do blastocisto, em média após 3 dias do ovo transporte,
ocorre a nidação em torno de 6 dias do período pós-ovulatório. A este
processo somam-se as trocas materno-ovulares necessárias para sustentação e
progresso da gravidez, tendo-se como base os dias da ovulação e do intercurso
sexual, varia de 2.5% para o 6º dia que a antecede, atingindo o máximo de
17.3% no período pré-ovulatório imediato e decrescendo até 0.5% no 4º dia
que procede a ovulação. Estima-se um máximo de 30% de ocorrência de gravidez
após relação sexual única no período periovulatório.
A
opção por regimes com uso de estrogênios e/ou preogestogênios tem como
principaids mecanismos de ação a irrupção temporária na produção
hormonal, disfunção luteal e ação direta dos hormônios exógenos
administrados com as conseqüentes alterações nos fenômenos biológicos que
culminam com a concepção. Esta inadequação é pendente ao tempo e dose,
tendo seus efeitos verificados na fecundação e na nidação.
Identifiquemos
claramente uma diferença dessa metodologia com o abortamento eletivo. No
abortamento eletivo visa-se especificamente a interrupção do processo
gestacional enquanto na anticoncepção de emergência espera-se a alteração
da fenomenologia reprodutiva. A própria conceituação caracteriza a anticoncepção
de emergência como um procedimento de caráter excepcional e de aplicação
emergencial.
As
indicações principaids estão pendentes a estas características:
-
Relação sexual não planejada (comum em adolescentes)
-
Uso inadequado do método anticoncepcional
-
Falha anticonceptiva presumida
-
Violência sexual (estupro)
A
semelhança de qualquer metodologia anticonceptiva, o procedimento deve ser
precedido de avaliação quanto a riscos e benefícios, resguardando-se as
contra-indicações específicas, bem como o criteriosos respeito a opção da
usuária.
PROCEDIMENTOS
Baseado
na fisiologia da reprodução e nos princípios da anticoncepção de emergência,
alguns critérios devem ser estabelecidos para o uso desta metodologia, quais
sejam:
-
Deve ser estabelecida até 72 horas, após o coito desprotegido
-
Deve ser procedimento de exceção, a habitualidade pode
estabelecer severos agravos às usuárias
-
Deve ser amplamente divulgada, de garantido acesso, tendo em vista
o caráter emergencial
-
A eficácia é tanto maior quanto mais precoce estabelecer-se o
procedimento
Vários
esquemas são propostos embasados em ensaios clínicos, que a pendência de vários
fatores apresentam resultados mais ou menos favoráveis. Os anticonceptivos
hormonais orais, usados em doses mais elevadas, até 72 horas após o coito
desprotegido, parece constituir a melhor opção na ausência de contra-indicação
ao seu uso. O “Regime de Yuzpe”, que consiste na tomada de 100 mcg de
estinilestradiol + 500 mcg de levonorgestrel, em duas doses com intervalos de 12
horas, parece ser o mais adequado e com alta eficácia.
Em
pacientes com restrições ao uso de estrogênio, o uso de 750 mcg de levonorgestrel,
em duas doses, com intervalo de 12 horas podem ser indicados com bons
resultados.
O
grande problema relacionado ao uso do esquema unimedicado com progestogênio,
prende-se as especialidade farmacêutica em uso comercial no Brasil, que
implicaria no uso de grande número de comprimidos em cada tomada.
As
contra-indicações comuns a uso dos anticonceptivos combinados hormonais, são
em sua imensa maioria cronodependentes, o que efetivamente decresce os possíveis
efeitos ominosos da anticoncepção emergencial, já que pacientes fumantes,
maiores de 35 anos, obesas e hipertensas, etc., serão mais penalizadas por
gestação indesejada, ao eventual uso do esquema de curto prazo.
A
anticoncepção emergencial com regimes de estrogênios e/ou progestogênios tem
no seu uso contra-indicações e precauções que são similares ao esquema
habitual, resguardando-se as vantagens por curto período de tempo.
A náusea
e emese são efeitos colaterais comuns na anticoncepção emergencial com regime
de Yuzpe, variando segundo a literatura entre 20 e 70% dos casos. Podendo ser
minimizada com a ingestão das doses após as refeições e/ou uso de antieméticos.
É necessário orientação às pacientes quanto a possibilidade de dose
adicional em caso de vômito com eliminação dos comprimidos. Outras queixas menos
comuns (cefaléia, mastalgia, dores abdominais) são referidas, mas tendem ao
desaparecimento entre um e dois dias após o término do tratamento.
A anticoncepção emergencial com hormônios provocam antecipação da perda menstrual, sendo comum alterações no padrão de sangramento do ciclo tratado. Em caso de persistência de sangramento anormal, deve ser afastada a possibilidade de gravidez.