Pílula do Dia Seguinte: Preconceito e Desinformação
Publicado in Regional Noticias, Ano 2, Edição 17, junho/04.
Muito se tem falado sobre a pílula do dia seguinte, novo método contraceptivo disponível no Brasil.
Novo? Não! Este método denominado contracepção de emergência existe e vem sendo cientificamente utilizado desde a década de 70, há mais de 30 anos.
Albert Yuzpe, seu principal formulador, descobriu que o uso de uma super-dosagem de pílulas anticoncepcionais orais comuns provocava a prevenção da gravidez também DEPOIS da relação sexual. Estudos internacionais demonstraram que se tomada até 24 horas após o sexo, evita em 98% a gravidez; de 24 a 48 horas evita 75% e de 48 a 72 horas, 58%.
A prescrição e dosagens como encontramos hoje está nas orientações da Organização Mundial de Saúde e, desde 1986, nas Normas de Planejamento Familiar brasileiras, que orientam as políticas de contraceptivos no país.
O Método é Contraceptivo:
Não é na hora da relação sexual que ocorre a gravidez. Nunca é na hora da relação.
Os espermatozóides precisam “maturar” dentro do útero e “nadar” em direção às trompas em busca do óvulo. Esse processo ocorre de 12 a 72 horas após a ejaculação, por isso dá tempo (muito tempo), de fazer algum procedimento de prevenção à gravidez, como, por exemplo, tomar a contracepção de emergência.
A Contracepção de Emergência Não é Abortiva:
Não é na fecundação que se inicia a gravidez. Milhares de mulheres têm fecundações que ocorrem em seus corpos e são perdidas ou expelidas pelo organismo sem que ninguém perceba, nem que seja apontado em testes de gravidez. A gravidez se inicia quando o óvulo fecundado “cola” nas paredes do útero (processo de nidação), o que permite a sobrevivência e início da alimentação celular via o corpo da mãe.
A contracepção de emergência age ANTES disso: evita a ovulação (já que é composta de super-doses de pílulas anticoncepcionais orais comuns) e atrapalha a mobilidade dos espermatozóides, não permitindo que cheguem às trompas e, conseqüentemente, a fecundar o óvulo.
Então porque todo essa histeria com relação à contracepção de emergência, que está previsto legalmente para uso no Brasil desde 1996?
Primeiro, porque ela vem sendo, basicamente, utilizada desde a década de 90 quase que exclusivamente para vítimas de estupro. Esse uso é realmente necessário e deve ser exigido, pois vem reduzindo significativamente o número de gestações decorrentes desse tipo de violência, ao mesmo tempo em que torna desnecessário, para boa parte das mulheres violadas, recorrer ao aborto legal, previsto na legislação para essas vítimas.
Segundo, porque ela chegou como produto disponível nas farmácia, para consumo de todos, e isso assusta idéias conservadoras que acreditam que “quem fez tem que pagar”, associando o sexo a um crime que merece punição: “não se preveniu antes, deve arcar com a gravidez”. Mas já sabemos quem arca, pelo menos na maior parte das vezes: as mães, as mulheres..., principalmente pobres.
Temos medo do novo, do conforto e da liberdade. Não se esqueçam que nos foi ensinado desde crianças que sexo é feio, sujo e pecado.
Para ter clareza dos efeitos da disponbilização da contracepção de emergência, vamos pensar no que vai acontecer:
- quem tem relação sem proteção vai continuar tendo;
- quem não usa camisinha vai continuar sem usar;
- quem se protege com camisinha e método contraceptivo vai continuar se protegendo, pois já está consciente dos riscos;
Porém:
- milhares de mulheres que abortam anualmente no Brasil, poderão ter uma opção de prevenção APÓS a relação sexual e ANTES da gravidez;
- mulheres pobres que realizam abortos clandestinos em péssimas condições serão as mais beneficiadas por este método;
- a quantidade de pessoas que engravida sem querer irá cair consideravelmente;
- jovens e adolescentes que, por falta de vivência, se põem em situações de risco, não precisarão mais ter como alternativa apenas a gravidez e/ou o aborto;
- casais desesperados com algum rompimento da camisinha ou com o esquecimento da pílula por dias seguidos, não precisarão passar noites e noites em claro, esperando a menstruação para ver o que aconteceu;
- podemos até estender as conseqüências... queda de doações e abandono de bebês por mulheres pobres... cálculo melhor do número de filhos... criação melhor dos filhos que se tem...
Isso é milagre? Não!, é o que ocorre toda vez que introduzimos métodos contraceptivos na sociedade: damos opção, damos possibilidade real de exercício da cidadania, principalmente para as mulheres. Neste momento, o método em discussão é a contracepção de emergência, o ÚNICO que pode ser usado depois do sexo.
Mas vale lembrar: ele é de emergência. Seu uso repetido gera sobrecarga hormonal, desregula o ciclo menstrual e facilita a gravidez. Para uso contínuo é mais seguro escolher um método como a pílula e/ou a camisinha e/ou o diafragma. Além disso, a contracepção de emergência não previne DST (doenças sexualmente transmissíveis) e aids.
...e não esquecer: em caso de descuido ou acidentes temos a contracepção de emergência. Sua disponibilidade representa a democratização de avanços científicos para a melhoria de vida das pessoas: jovens, adolescentes, homens, mulheres e crianças.
Regina Figueiredo – Antropóloga em Saúde
Membro do NEPAIDS – Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids/USP
e Articuladora da REDE CE - Rede Brasileira de Promoção de Informações
e Disponibilização da Contracepção de Emergência http:// www.redece.org